Uma nota dissonante num cenário habitual.
Encontro na sala uma figura fora do comum, quase que brilha, se calhar não por si só mas por contraste, por ausência de luz em redor.
Chama-se Jorge e é quase distinto e parece que entrei num qualquer café das Amoreiras ou da Av. de Roma. Se filme fosse e câmara tivesse nas mãos, então faria o redor difuso, para destacar pormenor.
Estende-me a mão limpa, unhas cortadas, punhos da camisa engomados. Uma pequena vénia e um "muito gosto" como se estivesse no foyer à espera de um 1º acto.
O Ricardo novo entabula uma conversa ou antes, ouve, porque são poucas as palavras que justificam uma interrupção, sei-o depois.
"square peg in a round hole"
E com o olhar circunspecto do Ricardo a despertar-me a curiosidade, espero que seja a minha vez de ser cúmplice.
A história, confidencia-me dias depois é violenta, triste, de um desperdício abismal.
De vez em quando lágrimas assolam nos seus olhos. Percebo que não sabe se as deixe correr ou se as engula e as junte ao rio que brota na ferida aberta no peito.
Conta-me muita coisa, tristezas e alegrias, desafios aceites, conquistas antigas, pecados confessados.
Sem pejo, desabafa sem intervalos, mistura o de ontem com o de antigamente, os sentimentos de desespero com os outros mais doces que se vai lembrando de terem existido.
Confessa vícios, más-vidas e mágoas mas não se esquece de contar os dias de abstinência.
É desta que se decidiu a limpar de vez as nódoas do álcool.
É desta que sente alguma força para andar um pouco mais para a frente.
É desta!
Na despedida levanta-se, estende de novo a mão e repete a vénia.
Lembro-me do que disse sobre a sua família de matriarcas, as aulas de piano (ou seriam de violino), o berço de ouro e os colégios.
Venho-me embora a sentir, egoistamente, que esta noite tive sorte.
Venho-me embora mas ainda vou a tempo de corrigir pensamento: importa o que sinto?
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