sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Mafalda (IV)

Já não tinha notícias sobre a minha amiga há algum tempo.
De vez em quando via a sua figurinha a passar rapidamente mas sem tempo para uma conversa.
Sem tempo ela, que eu anseio por aqueles momentos em que os olhos grandes e tristes se fixam em mim.
Foi na última saída de sábado, em que teve tempo para parar encostada à sua bengala, começando a desfiar as suas queixas.
Queixas que são novas apesar de antiga a lamúria
Queixas que são eco dos seus delírios
Queixas que são tragédias e prelúdio do fim, porque já não chega a morte anunciada pelo HIV e pelo consumo
Queixas que não me fizeram encolher o coração mas encheram-me a alma de silêncios.
Cancros, SIDA, ossos bambeantes, estas apenas uma amostra do que são as suas maleitas que carrega consigo
Carrega velozmente reparo, porque os seus pés deslizam rapidamente pela rua com destino a, diz-me ela, o quarto da pensão.
Quarto que tem que pagar todos os dias senão é despejada
Quarto que partilha com um de agora, a que chama marido, depois de ter chamado marido a outros que já foram.
E digo-lhe o que penso ser dito. Não duvido, não questiono, não contraponho diagnósticos:
que sim, que o cabelo está fraco, que a pele está mole, que os dedos se reviram, que o joelhos abanam, que os ossos das mãos se separam.
Nada é verdadeiramente real.
A sua pele está como sempre, marcas de uma doença avançada, magreza de rua, cor de condenada.
De resto tem o corpo igual ao de antes, igual ao da última vez, ao de todas as vezes.
Talvez a face mais marcada mas diga-se, também a minha!

E depois de a ver partir ouço alguém que me confidencia: não está em pensão, não tem quarto, vive debaixo de um arco no Martim Moniz no meio de cartões.
Não sei se é assim ou da outra maneira.
Fiquei tentada a ir ver, a verificar, como Tomé!

Vacilei...
Afinal terei direito a descobrir o que ela não quer dizer?

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