Se aceitarmos que o mundo é uma ervilha e que, cada vez que a rodamos nos dedos, fatalmente revemos a mesma face, então não é estranho que volte a tropeçar na Mafalda, por via do mais simples dos acasos.
(talvez "lá em cima" alguém me esteja a pregar partidas e coloque este degrau no meu caminho ciclicamente)
Noite de concerto no Coliseu! Entusiasmo, vibrações na alma à espera de ouvir as notas tão familiares de Jorge Palma. Na fila. À minha frente meia-dúzia de pessoas de costas voltadas para mim.
(acredito que a posição tenha a ver com o facto de ser uma fila e não propositadamente)
Ruídos de conversas, trocas de palavras, algumas também de entusiasmo e no meio...repentinamente...uma voz baixa e fina.
Primeiro ouvi o som e só depois decifrei as palavras...ajudar...uma moeda...comer.
Voltei-me porque também eu estava de costas para os que faziam a fila
(confesso que comigo esta posição de estar de costas é mais propositado do que casual)
E uma figura tão pequena, quase invisível surgiu ao meu lado.
Primeiro estendeu a mão e só depois levantou os olhos. Quero acreditar que sorriram.
(sorriram, pronto, tenho a certeza)
Abraçou-me como sempre, cabia debaixo da curva do meu braço, mas eu encolhi os joelhos e deixei-a ficar assim na curva do meu pescoço. Cheirava bem mesmo que os altos e baixos do seu corpo sejam doença sem remédio. Riu sem dentes, mas com aqueles olhos grandes e cheios de pestanas que são dela e de mais ninguém.
Mostrou-me a barriga de uma gravidez pequenina
(pequenina porque a Mafalda é pequenina, dentro caberia talvez uma vida de 4 meses)
E disse-me com uma candura que sei ser mentirosa mas, para ela, tão genuína como as verdades maiores, que estava grávida, feliz e que tudo ia correr bem.
Despedi-me dela com outro abraço e isso parece ter incentivado os tais que estavam de costas para mim e os outros que eu tinha ignorado.
Houve mais moedas para a Mafalda
E eu que só estava ali para me deliciar com as letras do Jorge Palma fiquei assim a fazer de embaixadora da VOXLisboa, sem querer.
(embaixadora de palavras, despertando compaixões, legitimando afinal as dádivas)
Tenho pessoas, espaços, cantos escuros e alguns, raros, lampejos de sorrrisos. Tenho histórias curtas, anónimas, fotografias escritas de noites na calçada.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Comboio Noturno para Lisboa de Pascal Mercier #1
[...]Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo.. Quero erguer o meu olhar para o brilho dos seus vitrais e deixar-me cegar pelas cores prodigiosas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com a frescura seca das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a berraria na parada da caserna e o arrazoar frívolo dos oportunistas. Quero escutar o eco oceânico do orgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra o chinfrim ridículo da música de marcha. Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem, Preciso dela contra o veneno insidioso do supérfluo e negligente. Quero ler as palavras poderosas da Bíblia. Preciso da força irreal da sua poesia. Preciso dela contra o aviltamento da linguagem e a ditadura das senhas. Um mundo sem estas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.
E, no entanto, existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver:um mundo em que o corpo e o pensar independentes são condenados e onde coisas que fazem parte do melhor que podemos experimentar são estigmatizados como pecados. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os torcionários e assassinos traiçoeiros, mesmo quando as suas brutais passadas marciais ecoam atordoantes pelas vielas, ou quando se esgueiram silenciosos e felinos, como sombras cobardes, pelas ruas e travessas, para enterrar pelas costas, direito ao coração das vítimas, o aço faiscante. Entre todas as afrontas que do alto do púlpito foram lançadas às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria, forçosamente, que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamente, esse desvairado e perverso mandamento do amor para com o inimigo serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a confiança em si próprios, e para as tornar malévolas nas mãos dos tiranos, para que elas não consigam encontrar a força para se revoltarem, se necessário pegando em armas. [...]
E, no entanto, existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver:um mundo em que o corpo e o pensar independentes são condenados e onde coisas que fazem parte do melhor que podemos experimentar são estigmatizados como pecados. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os torcionários e assassinos traiçoeiros, mesmo quando as suas brutais passadas marciais ecoam atordoantes pelas vielas, ou quando se esgueiram silenciosos e felinos, como sombras cobardes, pelas ruas e travessas, para enterrar pelas costas, direito ao coração das vítimas, o aço faiscante. Entre todas as afrontas que do alto do púlpito foram lançadas às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria, forçosamente, que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamente, esse desvairado e perverso mandamento do amor para com o inimigo serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a confiança em si próprios, e para as tornar malévolas nas mãos dos tiranos, para que elas não consigam encontrar a força para se revoltarem, se necessário pegando em armas. [...]
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(Tenho a mania de ficar com textos dentro dos olhos. Levam algum tempo para diluir em lágrimas. Outras vezes cimentam ideias, sobem ao sótão das convições e ficam. Este é um deles)
Sem
Há sempre uma pergunta que me assola a mente em dias como estes em que deixo o conforto de todos os dias e procuro, numa visita negra, outro conforto.
Quando o frio que me envolve o peito me encaminha os passos, para a realidade de outras vidas que ficaram ainda mais frias, penso: o que me guia?
Quando o frio que me envolve o peito me encaminha os passos, para a realidade de outras vidas que ficaram ainda mais frias, penso: o que me guia?
E penso ainda se a minha tristeza surge pelas lembranças de outros momentos em que, também eu, perdi, ou se a minha tristeza é a antevisão do dia em que vou estar sentada, quieta, vazia, a ser vista por outras pessoas que, também elas, procuram numa visita negra, outro conforto.
(aceitam-se sugestões e dão-se alvíssaras)
(aceitam-se sugestões e dão-se alvíssaras)
Chama-se Mafalda (II)
Foi já há algum tempo que a encontrei na rua.
Pequenina e fugidia, olhos tão grandes e tão cheios de medo que me fizeram lembrar os de um cachorro maltratado.
Olha de baixo para cima, inclina a cabeça e cruza os braços sobre o peito, peito de mulher quase inexistente.
Como se tivesse jurado não partilhar a dor com mais ninguém e, por isso, a quisesse prender.
Com um afago percebo os contornos doentes do seu corpo, as marcas vermelhas de uma doença que lhe chegou da vida, pouca, que teve até aí.
Espremida a vida, ficam as feridas do vício, da promiscuidade, do abandono a tantos outros corpos, em outras tantas noites de perdição.
Tem a idade de tudo esperar da vida, a idade de uma mulher que se prepara para viver, para procriar, para dar amor incondicional, para se dar ao outro e ficar.
Tem a idade de tudo esperar da vida, a idade de uma mulher que se prepara para viver, para procriar, para dar amor incondicional, para se dar ao outro e ficar.
Foi mãe mas o filho, agora morto, foi consolo de pouca dura.
Tem os anos que se contam num papel mas, na pele, contam-se 10 vezes mais.
Não mendiga, não pede, não aceita mais do que pensa ter direito. E pensa não ter direito a nada.
Agora, porque a vida é madrasta, padrasto e carrasco, não conseguiu dar a volta.
Tem os anos que se contam num papel mas, na pele, contam-se 10 vezes mais.
Não mendiga, não pede, não aceita mais do que pensa ter direito. E pensa não ter direito a nada.
Agora, porque a vida é madrasta, padrasto e carrasco, não conseguiu dar a volta.
E é no hospital que agora a encontro, enfraquecida.
Os olhos continuam grandes porque a anatomia é indiferente ao interior, é cínica que baste para enganar e subverter o sentido de uma existência condenada.
Os olhos continuam grandes porque a anatomia é indiferente ao interior, é cínica que baste para enganar e subverter o sentido de uma existência condenada.
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[11.03.16-Internada no Curry Cabral, pavilhão de infecto-contagiosos. Entro de máscara branca por cima da máscara habitual que levo no rosto]
Um ciclo ou um círculo
Dia 25 de Agosto de 2016, podia ser um dia como qualquer outro, uma quinta-feira que já cheira a fim e a novos começos.
Podia ser uma pausa no fôlego que se guarda para que no dia seguinte tenhamos toda a energia para voar no fim-de-semana.
Podia ser tanta coisa ou mesmo nada, apenas passagem. Mas não! Em viagem para o sul, já noite, com uma certeza apenas nas mãos: esta viagem encerra o último capítulo de um livro que me acompanhou durante muito tempo.
Demasiado?
Questões recorrentes para muita gente: poderia ser menos; fiz o suficiente; fui demasiado dura?
E chego a um estado em que a compaixão ficou um metro lá atrás.
Pena tenho do que se perdeu, do que poderia ter sido, do tempo que afinal deu frutos já secos e apodrecidos.
Pena da condição de ser humano que, afinal, não se revelou ou, por outro lado, caiu algures na estrada e não houve preocupação de apanhar e compor.
Vejo isto muitas vezes, mas nunca vi durante tanto tempo e depois de 3 anos, pouco calendário sim, mas todos os 365 dias de cada ano rasgados, acaba o tempo e o resto.
Hoje escrevo isto como mnemónica e faço um algoritmo das emoções porque a matemática nunca me enganou.
E fico-me por aqui com o distanciamento que me obriga esta condição de voluntária.
----------------------------------------------
[Quando o Jorge me desapontou mais do que eu consegui relativizar, escrevi isto como memória futura.
Para quando eu sentir de novo poder ler e deixar de ter esperança]
Podia ser uma pausa no fôlego que se guarda para que no dia seguinte tenhamos toda a energia para voar no fim-de-semana.
Podia ser tanta coisa ou mesmo nada, apenas passagem. Mas não! Em viagem para o sul, já noite, com uma certeza apenas nas mãos: esta viagem encerra o último capítulo de um livro que me acompanhou durante muito tempo.
Demasiado?
Questões recorrentes para muita gente: poderia ser menos; fiz o suficiente; fui demasiado dura?
E chego a um estado em que a compaixão ficou um metro lá atrás.
Pena tenho do que se perdeu, do que poderia ter sido, do tempo que afinal deu frutos já secos e apodrecidos.
Pena da condição de ser humano que, afinal, não se revelou ou, por outro lado, caiu algures na estrada e não houve preocupação de apanhar e compor.
Vejo isto muitas vezes, mas nunca vi durante tanto tempo e depois de 3 anos, pouco calendário sim, mas todos os 365 dias de cada ano rasgados, acaba o tempo e o resto.
Hoje escrevo isto como mnemónica e faço um algoritmo das emoções porque a matemática nunca me enganou.
E fico-me por aqui com o distanciamento que me obriga esta condição de voluntária.
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[Quando o Jorge me desapontou mais do que eu consegui relativizar, escrevi isto como memória futura.
Para quando eu sentir de novo poder ler e deixar de ter esperança]
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
Há coisas que surgem na nossa vida, inesperadamente.
Sabemos na sua génese como a criação é fundamentada, como uma fusão e uma cisão posteriores podem ser causa de um acontecimento.
Para isso temos a biologia.
Com mais ou menos conhecimentos o que é facto são os factos da vida (passe a redundância).
E depois a própria vida ainda nos ajuda, dá-nos tempo, qualquer coisa como 270 dias.
Crescemos com a ideia, mental e fisicamente. As dimensões espirituais e físicas mudam.
Acordamos uns dias com espanto e nada é o mesmo dentro de nós.
E fora e com os outros.
Para isso temos a biologia.
Com mais ou menos conhecimentos o que é facto são os factos da vida (passe a redundância).
E depois a própria vida ainda nos ajuda, dá-nos tempo, qualquer coisa como 270 dias.
Crescemos com a ideia, mental e fisicamente. As dimensões espirituais e físicas mudam.
Acordamos uns dias com espanto e nada é o mesmo dentro de nós.
E fora e com os outros.
Mais tarde, o tempo esgota-se, não dependendo de nós, mas dele, sempre dele, sem remédio.
E num grito, num espasmo súbito, um espaço vazio é ocupado por um novo ser.
E as dimensões remetem-se à sua forma anterior.
E num grito, num espasmo súbito, um espaço vazio é ocupado por um novo ser.
E as dimensões remetem-se à sua forma anterior.
Excepto uma.
A dimensão do nosso órgão mais vital, o que bate, o que tem aquele tom surdo que nos acompanha enquanto vivos. Estica como um músculo, enche-se de emoção como um copo de vinho, transborda como uma barragem em Invernos rigorosos.
A partir desse momento, o segundo perfeito, não somos já nós, somos o outro
Sem remédio (...)
A dimensão do nosso órgão mais vital, o que bate, o que tem aquele tom surdo que nos acompanha enquanto vivos. Estica como um músculo, enche-se de emoção como um copo de vinho, transborda como uma barragem em Invernos rigorosos.
A partir desse momento, o segundo perfeito, não somos já nós, somos o outro
Sem remédio (...)
Perspectivas
Perspectivas são maneiras de ver as coisas, acontecimentos, sonhos.
Há muitas, como chapéus.
Semicerram-se os olhos quando tentamos ver uma, às vezes o cérebro engana-nos e dá-nos outra, diferente.
Podemos ter mais do que uma.
Podemos até ter uma hoje e outra diferente amanhã.
Vemos a nossa, ouvimos as dos outros
Anuímos numa concordância, às vezes, forçada.
obrigados, por vezes, a aceitar uma que não é a nossa.
Mas, em momentos de luz, paz, cumplicidade, conseguimos ver a mesma que o outro.
É acordar.
É ser-se vivo
Para nós.
Perspectivas
Primeiro são apenas riscos.
Depois pode ser para sempre.
Para pensar
Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo princípio, mas podemos começar agora e fazer um novo fim.
Frases perdidas e achadas
"Quando alguém olha para dentro de nós
e nos vê exactamente como nós somos
e, mesmo assim,
escolhe ficar,
isso é poderoso"
e nos vê exactamente como nós somos
e, mesmo assim,
escolhe ficar,
isso é poderoso"
Two Lines
"será que tenho nome se não o consigo escrever
será que sou um ser humano se não sei ler"
-------------------------------------------------------------
Robert de Niro em Stanley and Iris
será que sou um ser humano se não sei ler"
-------------------------------------------------------------
Robert de Niro em Stanley and Iris
Complemento indirecto
A noite passa tão escura...
Noites iguais, todas, onde se apalpa a ausência e se pinta de negro o desejo
Se pinta de negro, para se tapar a côr dos dias
Quase sem dar por isso os olhos fecham e a respiração fica obrigatória.
Toma conta de mim sem eu dar por isso.
Fantasmas fumam e as espirais sobem para o céu azul
Um lapso de tempo
Vai-se a noite e não vivi.
Noites iguais, todas, onde se apalpa a ausência e se pinta de negro o desejo
Se pinta de negro, para se tapar a côr dos dias
Quase sem dar por isso os olhos fecham e a respiração fica obrigatória.
Toma conta de mim sem eu dar por isso.
Fantasmas fumam e as espirais sobem para o céu azul
Um lapso de tempo
Vai-se a noite e não vivi.
...volta
E quando o fim do dia chega que há a aspirar?
Uma volta nas voltas contínuas de um dia redondo
Talvez duas voltas se tiver sorte e puder acompanhar
E quando a estrada é reta e não há horizonte?
Como damos a volta do fim do dia?
Uma volta nas voltas contínuas de um dia redondo
Talvez duas voltas se tiver sorte e puder acompanhar
E quando a estrada é reta e não há horizonte?
Como damos a volta do fim do dia?
Chamo-me Mafalda
Foi assim a meio de frases precipitadas ditas roucamente e um olhar esguio. que ouvi o seu nome.
Normal, o nome, até um pouco rebuscado talvez.
Mafalda
Breve o nosso encontro mas tão imenso que não consigo afastar a sua face.
Pequena, tão pequena como uma criança que ainda não cresceu.
Queria roupa
- Estão a dar roupa?
Eu respondi que não, com alguma pena de não poder dar-lhe o que andava à procura.
- Eu precisava de roupa
- Se tivesse vindo mais cedo estiveram aqui a dar comida e roupa
- Pois, mas é muita gente, muita confusão, eu não gosto de muita gente.
Percebo-a, mesmo com esta distância que, aparentemente, nos separa.
Não gosta de muita gente.
- Então podemos combinar uma coisa, daqui a 2 semanas eu vou estar aqui de novo e se vier ter comigo, eu ajudo-a a escolher a roupa sem ser no meio de muita gente, pode ser?
(Eu a desejar que já tivessem passado duas semanas assim de repente, e já fosse outra vez dia de conversa amiga)
- Sabes a minha filha morreu
- (…)
- Morreu de Síndrome de Morte Súbita
- Sim…tenho muita pena
(Quando alguém perde um braço ou uma perna…oh que pena, diz-se, mas olha estás vivo, podes continuar. Que se diz a alguém que perde o coração?)
- Morreu pois foi. E eu fiquei assim sozinha.
- Mas sabes se ainda tivesses a tua filha seria muito difícil criá-la na rua assim na condição em que estás, não?
(Mas que espécie de consolação é esta, mas que estúpido argumento é este, eu, mãe, mulher?)
- Nunca faltou nada à minha filha, fosse como fosse. Eu nem sequer gostava do gajo que me lixou. Não gostava dele, estava drogada e depois já tinha acontecido. Quando soube que estava grávida disse-lhe, agora que me deixaste assim, ensina-me a gostar de ti. E foi a droga, foi esta merda desta vida que me trouxe aqui. Sabes tenho SIDA.
(“Ensina-me a gostar de ti”, esta frase ficou assim a pairar na minha cabeça, talvez a frase mais forte que ouvi de alguém que, por desamor, se perdeu)
- Como vives, como sobrevives?
- Tenho um quarto numa pensão que custa €12,50 por noite. Durmo ali com o gajo que me deixou assim, desgraçada….Sabes… tu podias ser minha mãe…!
(Olhei em volta a tentar entender se o fim da frase vinha da mesma fonte de dor ou se seria um eco sonhado)
A sua cabeça encostou-se no meu ombro. O meu ombro cedeu àquela criança/mulher que se chama Mafalda e que dizia que eu podia ser mãe dela
- Que idade tens?
- 27
- Pois então podias mesmo ser minha filha porque a minha filha mais velha tem 27 anos.
- Mas podias ser mesmo a sério, podias, eu gostava que fosses minha mãe…
Dei-lhe um abraço, sem conseguir dizer mais. Porque podia ser minha filha, tem a idade certa, o tamanho certo, talvez até a doçura certa. Não estava na minha casa, não tinha tomado banho, não estava penteada e estava muito doente a caminhar para o fim.
Geografia, pensei, talvez seja apenas uma questão de geografia, do sítio onde se está em vez de noutro qualquer. Naquela noite não sei ainda exactamente o que senti, passaram muitos dias e ainda não consigo separar as palavras, dos meus olhos, da ponta dos meus dedos, do meu peito que ela ocupou durante um segundo.
Sem abrigo, duas palavras que me soam hoje de uma forma muito diferente. Não sei ainda o que significam. Mas escolhi esta definição: sem tecto, sem casa, sem gente, sem rumo, sem tudo.
Normal, o nome, até um pouco rebuscado talvez.
Mafalda
Breve o nosso encontro mas tão imenso que não consigo afastar a sua face.
Pequena, tão pequena como uma criança que ainda não cresceu.
Queria roupa
- Estão a dar roupa?
Eu respondi que não, com alguma pena de não poder dar-lhe o que andava à procura.
- Eu precisava de roupa
- Se tivesse vindo mais cedo estiveram aqui a dar comida e roupa
- Pois, mas é muita gente, muita confusão, eu não gosto de muita gente.
Percebo-a, mesmo com esta distância que, aparentemente, nos separa.
Não gosta de muita gente.
- Então podemos combinar uma coisa, daqui a 2 semanas eu vou estar aqui de novo e se vier ter comigo, eu ajudo-a a escolher a roupa sem ser no meio de muita gente, pode ser?
(Eu a desejar que já tivessem passado duas semanas assim de repente, e já fosse outra vez dia de conversa amiga)
- Sabes a minha filha morreu
- (…)
- Morreu de Síndrome de Morte Súbita
- Sim…tenho muita pena
(Quando alguém perde um braço ou uma perna…oh que pena, diz-se, mas olha estás vivo, podes continuar. Que se diz a alguém que perde o coração?)
- Morreu pois foi. E eu fiquei assim sozinha.
- Mas sabes se ainda tivesses a tua filha seria muito difícil criá-la na rua assim na condição em que estás, não?
(Mas que espécie de consolação é esta, mas que estúpido argumento é este, eu, mãe, mulher?)
- Nunca faltou nada à minha filha, fosse como fosse. Eu nem sequer gostava do gajo que me lixou. Não gostava dele, estava drogada e depois já tinha acontecido. Quando soube que estava grávida disse-lhe, agora que me deixaste assim, ensina-me a gostar de ti. E foi a droga, foi esta merda desta vida que me trouxe aqui. Sabes tenho SIDA.
(“Ensina-me a gostar de ti”, esta frase ficou assim a pairar na minha cabeça, talvez a frase mais forte que ouvi de alguém que, por desamor, se perdeu)
- Como vives, como sobrevives?
- Tenho um quarto numa pensão que custa €12,50 por noite. Durmo ali com o gajo que me deixou assim, desgraçada….Sabes… tu podias ser minha mãe…!
(Olhei em volta a tentar entender se o fim da frase vinha da mesma fonte de dor ou se seria um eco sonhado)
A sua cabeça encostou-se no meu ombro. O meu ombro cedeu àquela criança/mulher que se chama Mafalda e que dizia que eu podia ser mãe dela
- Que idade tens?
- 27
- Pois então podias mesmo ser minha filha porque a minha filha mais velha tem 27 anos.
- Mas podias ser mesmo a sério, podias, eu gostava que fosses minha mãe…
Dei-lhe um abraço, sem conseguir dizer mais. Porque podia ser minha filha, tem a idade certa, o tamanho certo, talvez até a doçura certa. Não estava na minha casa, não tinha tomado banho, não estava penteada e estava muito doente a caminhar para o fim.
Geografia, pensei, talvez seja apenas uma questão de geografia, do sítio onde se está em vez de noutro qualquer. Naquela noite não sei ainda exactamente o que senti, passaram muitos dias e ainda não consigo separar as palavras, dos meus olhos, da ponta dos meus dedos, do meu peito que ela ocupou durante um segundo.
Sem abrigo, duas palavras que me soam hoje de uma forma muito diferente. Não sei ainda o que significam. Mas escolhi esta definição: sem tecto, sem casa, sem gente, sem rumo, sem tudo.
Não chega
Penso incessantemente no que me chega, nas prioridades minhas e dos outros, na angústia de querer saber os limites, os meus e…os dos outros.
Passa o tempo, passa o prazo, passa quase tudo excepto a ânsia da explicação.
E o meu espírito persiste num funambular constante e divaga… porque me chega o voar de uma andorinha……porque fico brilhante quando me chega o mar aos pés…o que é suficiente para um sorriso rasgado quando olho o dia e percebo que estou, ainda.
Pode ser uma só nota de música a passar, a voar, a fumegar por entre nuvens esparsas…e o vento que me agita os cabelos e as faz desaparecer apenas para tornar a trazê-las.
Pode ser uma conversa que, por vezes, é monólogo e outras discussão acesa e que é tão clara que tudo fica branco, melodia, canção.
Pode ser silêncio pontuado com as folhas a dançarem ao sabor da brisa, por vezes mais tarde, o dissecar de uma ausência que se transforma em silêncio.
Pequenas coisas, pequenos desenhos, pequenos sonhos, momentos, pausas.
Tudo pequeno mas é meu, é o meu olhar, é a minha pele a sentir.
Tantas coisas que me chegam, tantas que tenho uma vontade cada vez maior de deitar abaixo os limites da minha vivência e guardar apenas o ar quente ou frio, seco ou molhado, aquele ar que transporta e devolve, afinal, tudo o que me chega.
Passa o tempo, passa o prazo, passa quase tudo excepto a ânsia da explicação.
E o meu espírito persiste num funambular constante e divaga… porque me chega o voar de uma andorinha……porque fico brilhante quando me chega o mar aos pés…o que é suficiente para um sorriso rasgado quando olho o dia e percebo que estou, ainda.
Pode ser uma só nota de música a passar, a voar, a fumegar por entre nuvens esparsas…e o vento que me agita os cabelos e as faz desaparecer apenas para tornar a trazê-las.
Pode ser uma conversa que, por vezes, é monólogo e outras discussão acesa e que é tão clara que tudo fica branco, melodia, canção.
Pode ser silêncio pontuado com as folhas a dançarem ao sabor da brisa, por vezes mais tarde, o dissecar de uma ausência que se transforma em silêncio.
Pequenas coisas, pequenos desenhos, pequenos sonhos, momentos, pausas.
Tudo pequeno mas é meu, é o meu olhar, é a minha pele a sentir.
Tantas coisas que me chegam, tantas que tenho uma vontade cada vez maior de deitar abaixo os limites da minha vivência e guardar apenas o ar quente ou frio, seco ou molhado, aquele ar que transporta e devolve, afinal, tudo o que me chega.
[para uma qualquer pessoa, em qualquer vão de escada, o que lhe chegará?]
terça-feira, 7 de novembro de 2017
VOXLX-CAX IV
No CAX muitos utentes partilham de necessidades que decorrem dos caminhos que seguiram nas suas vidas, necessidades que conhecemos, que ouvimos, que abraçamos e tentamos aligeirar.
Porque conhecemos estas pessoas e queremos que o caminho seguinte seja mais leve e menos traumatizante, voluntários da VOXLisboa aderiram a uma forma de apoio. Com o voluntários de Saúde (profissionais e estudantes) e as suas visitas mensais, a saúde é explicada, apoiada e acompanhada.
Outros voluntários colocam as ferramentas das suas profissões na ajuda, no encaminhamento e resolução de problemas prementes, tendo, em conjunto com o CAX, um programa de apoio jurídico dirigido aos utentes.
Para os que estão à margem, para os que se sentem excluídos, tornamos mais fácil a compreensão dos pressupostos legais, o acesso à cidadania, tendo sempre como objectivo que, o fim do caminho, será sempre uma inclusão clara e abrangente para todas as pessoas acompanhadas.
VOXLX-CAX III
30/10/2017 - No calendário há uma marca CAX+VOXLisboa
Ao início da noite inicia-se o atendimento pelos voluntários do Rua com Saúde.
Observações, auscultações, conselhos, acompanhamento e as visitas ao consultório sucedem-se.
Na sala de estar e na sala de jantar, os voluntários Rua com Saída estão bem acompanhados pelos utentes que já se habituaram às suas visitas. Conversas que se continuam e novidades sobre outros. O "D" já não está. Tem a sua vida encaminhada numa casa em Lisboa que demorou algum tempo a compor mas que é agora o seu lar.
Passos que se dão para um futuro ainda imberbe mas que persegue com força.
No fim da nossa visita seguimos os passos na direcção da saída e não podemos deixar de parar sobre mensagens deixadas por alguns utentes:
[...] arranjar uma família [...] [...] arranjar uma casa e uma companheira [...]
Ao início da noite inicia-se o atendimento pelos voluntários do Rua com Saúde.
Observações, auscultações, conselhos, acompanhamento e as visitas ao consultório sucedem-se.
Na sala de estar e na sala de jantar, os voluntários Rua com Saída estão bem acompanhados pelos utentes que já se habituaram às suas visitas. Conversas que se continuam e novidades sobre outros. O "D" já não está. Tem a sua vida encaminhada numa casa em Lisboa que demorou algum tempo a compor mas que é agora o seu lar.
Passos que se dão para um futuro ainda imberbe mas que persegue com força.
No fim da nossa visita seguimos os passos na direcção da saída e não podemos deixar de parar sobre mensagens deixadas por alguns utentes:
[...] arranjar uma família [...] [...] arranjar uma casa e uma companheira [...]
VOXLX-CAX II ("M")
O “M” igual a sempre, disponível, educado, postura escorreita. Existe no seu discurso uma deferência particular, apesar do vocabulário o atrapalhar por vezes. Conhecemo-lo na nossa primeira visita e, desde aí, temos conversa obrigatória. Repete as histórias e a gratidão também. Uma companhia de todas as visitas. Na próxima, vamos ver…
VOXLX-CAX I (L)
O “L” estava abatido. Com saudade dos dias de antes em que o copo ainda lhe dava boa disposição, cansado dos dias de agora em que o copo já não o leva ao mesmo sítio. Bebe uns dias, outros não, faz alguns intervalos se calhar para ver se “no regresso” a coisa vai “bater” outra vez como dantes. Falou, sem inibições, com calma, com uma clareza e aceitação pouco vulgares e sem revolta. Ficámos de falar de novo na nossa próxima visita, a ver se é desta que a coisa vai…
Na sala mais privada trata-se da saúde física com dois médicos que atendem, registam encaminham e, como aconteceu ontem, estão no lugar certo à hora certa: uma consulta, uma ida ao hospital e, esperamos, uma recuperação.
Mais tarde, sentados à mesa, conseguimos perceber os olhares curiosos, as questões veladas por entre uma garfada e outra. Abrimos os sorrisos e ensaiamos energias e pensamos que é desta, que vamos conseguir hoje, quem sabe um boa noite já a entreabrir uma futura cumplicidade.
Todas as visitas são pontuadas pela mesma vontade: estar disponível, teimar na presença, estar atento aos cantos dos olhos que, por vezes, teimam em fugir para os nossos.
E, com esta “dança”, fazemos história no Centro e, devagarinho, caminhamos pelo peito adentro de uma realidade construída em cima de passados tempestuosos.
Projectos Rua com Saída e Rua com Saúde, sempre a par no Centro de Acolhimento de Xabregas do Exército de Salvação.
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