quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Avec le temps - Leo Ferré

Com o passar do tempo tudo se vai
Esquecem-se as caras e as vozes
Se o coração pára de bater, não vale a pena correr atrás dele, é deixá-lo ficar.
Com o passar do tempo tudo se vai
Aquele que amávamos, que buscávamos à chuva,
que adivinhávamos pelo canto do olho,
nas palavras, nas linhas, num juramento que parte na noite e que se desvanece.
Com o passar do tempo tudo se vai
Mesmo as recordações mais agradáveis desaparecem
E brincamos com os raios da morte.
Num sábado à noite quando a ternura parte, ficamos sozinhos.
Com o passar do tempo tudo se vai
Aquele que partilhava connosco o frio, o nada.
Aquele a quem dávamos ventos e beijos.
Vendeu a sua alma por uns trocos.
Com o passar do tempo tudo se vai
Esquecem- se as paixões e esquecem-se as vozes
dos que nos diziam "não venhas tarde e sobretudo não apanhes frio"
Com o passar do tempo tudo se vai
E sentimo-nos como um cavalo esgotado
E sentimo-nos gelados numa cama de acasos
E sentimo-nos sozinhos mas talvez confortáveis
E sentimo-nos enganados pelos anos perdidos
Na verdade com o passar dos anos deixamos de amar

Nunca tinha ouvido esta música do Leo Ferré, um dos mestres da música francesa.
Aliás, na verdade, não ouço Leo Ferré assim muito. De passagem...
Mas, sem razão aparente cliquei "TSF" no rádio do carro e lá estava ela.
Pus-me a ouvir.
Estranhos acasos que nos põem ao par destas ideias que já outros tiveram.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

VOXLX-CAX V ("J-prefácio e primeiro capítulo")

Uma nota dissonante num cenário habitual.
Encontro na sala uma figura fora do comum, quase que brilha, se calhar não por si só mas por contraste, por ausência de luz em redor.
Chama-se Jorge e é quase distinto e parece que entrei num qualquer café das Amoreiras ou da Av. de Roma. Se filme fosse e câmara tivesse nas mãos, então faria o redor difuso, para destacar pormenor.
Estende-me a mão limpa, unhas cortadas, punhos da camisa engomados. Uma pequena vénia e um "muito gosto" como se estivesse no foyer à espera de um 1º acto.
O Ricardo novo entabula uma conversa ou antes, ouve, porque são poucas as palavras que justificam uma interrupção, sei-o depois.

"square peg in a round hole"

E com o olhar circunspecto do Ricardo a despertar-me a curiosidade, espero que seja a minha vez de ser cúmplice.
A história, confidencia-me dias depois é violenta, triste, de um desperdício abismal.
De vez em quando lágrimas assolam nos seus olhos. Percebo que não sabe se as deixe correr ou se as engula e as junte ao rio que brota na ferida aberta no peito.
Conta-me muita coisa, tristezas e alegrias, desafios aceites, conquistas antigas, pecados confessados.
Sem pejo, desabafa sem intervalos, mistura o de ontem com o de antigamente, os sentimentos de desespero com os outros mais doces que se vai lembrando de terem existido.
Confessa vícios, más-vidas e mágoas mas não se esquece de contar os dias de abstinência.
É desta que se decidiu a limpar de vez as nódoas do álcool.
É desta que sente alguma força para andar um pouco mais para a frente.
É desta!

Na despedida levanta-se, estende de novo a mão e repete a vénia.
Lembro-me do que disse sobre a sua família de matriarcas, as aulas de piano (ou seriam de violino), o berço de ouro e os colégios.
Venho-me embora a sentir, egoistamente, que esta noite tive sorte.
Venho-me embora mas ainda vou a tempo de corrigir pensamento: importa o que sinto?



Mafalda (IV)

Já não tinha notícias sobre a minha amiga há algum tempo.
De vez em quando via a sua figurinha a passar rapidamente mas sem tempo para uma conversa.
Sem tempo ela, que eu anseio por aqueles momentos em que os olhos grandes e tristes se fixam em mim.
Foi na última saída de sábado, em que teve tempo para parar encostada à sua bengala, começando a desfiar as suas queixas.
Queixas que são novas apesar de antiga a lamúria
Queixas que são eco dos seus delírios
Queixas que são tragédias e prelúdio do fim, porque já não chega a morte anunciada pelo HIV e pelo consumo
Queixas que não me fizeram encolher o coração mas encheram-me a alma de silêncios.
Cancros, SIDA, ossos bambeantes, estas apenas uma amostra do que são as suas maleitas que carrega consigo
Carrega velozmente reparo, porque os seus pés deslizam rapidamente pela rua com destino a, diz-me ela, o quarto da pensão.
Quarto que tem que pagar todos os dias senão é despejada
Quarto que partilha com um de agora, a que chama marido, depois de ter chamado marido a outros que já foram.
E digo-lhe o que penso ser dito. Não duvido, não questiono, não contraponho diagnósticos:
que sim, que o cabelo está fraco, que a pele está mole, que os dedos se reviram, que o joelhos abanam, que os ossos das mãos se separam.
Nada é verdadeiramente real.
A sua pele está como sempre, marcas de uma doença avançada, magreza de rua, cor de condenada.
De resto tem o corpo igual ao de antes, igual ao da última vez, ao de todas as vezes.
Talvez a face mais marcada mas diga-se, também a minha!

E depois de a ver partir ouço alguém que me confidencia: não está em pensão, não tem quarto, vive debaixo de um arco no Martim Moniz no meio de cartões.
Não sei se é assim ou da outra maneira.
Fiquei tentada a ir ver, a verificar, como Tomé!

Vacilei...
Afinal terei direito a descobrir o que ela não quer dizer?

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Mafalda (III)

Se aceitarmos que o mundo é uma ervilha e que, cada vez que a rodamos nos dedos, fatalmente revemos a mesma face, então não é estranho que volte a tropeçar na Mafalda, por via do mais simples dos acasos.
(talvez "lá em cima" alguém me esteja a pregar partidas e coloque este degrau no meu caminho ciclicamente)

Noite de concerto no Coliseu! Entusiasmo, vibrações na alma à espera de ouvir as notas tão familiares de Jorge Palma. Na fila. À minha frente meia-dúzia de pessoas de costas voltadas para mim.
(acredito que a posição tenha a ver com o facto de ser uma fila e não propositadamente)

Ruídos de conversas, trocas de palavras, algumas também de entusiasmo e no meio...repentinamente...uma voz baixa e fina.
Primeiro ouvi o som e só depois decifrei as palavras...ajudar...uma moeda...comer.
Voltei-me porque também eu estava de costas para os que faziam a fila
(confesso que comigo esta posição de estar de costas é mais propositado do que casual)

E uma figura tão pequena, quase invisível surgiu ao meu lado.
Primeiro estendeu a mão e só depois levantou os olhos. Quero acreditar que sorriram.
(sorriram, pronto, tenho a certeza)

Abraçou-me como sempre, cabia debaixo da curva do meu braço, mas eu encolhi os joelhos e deixei-a ficar assim na curva do meu pescoço. Cheirava bem mesmo que os altos e baixos do seu corpo sejam doença sem remédio. Riu sem dentes, mas com aqueles olhos grandes e cheios de pestanas que são dela e de mais ninguém.
Mostrou-me a barriga de uma gravidez pequenina
(pequenina porque a Mafalda é pequenina, dentro caberia talvez uma vida de 4 meses)

E disse-me com uma candura que sei ser mentirosa mas, para ela, tão genuína como as verdades maiores, que estava grávida, feliz e que tudo ia correr bem.
Despedi-me dela com outro abraço e isso parece ter incentivado os tais que estavam de costas para mim e os outros que eu tinha ignorado.
Houve mais moedas para a Mafalda

E eu que só estava ali para me deliciar com as letras do Jorge Palma fiquei assim a fazer de embaixadora da VOXLisboa, sem querer.

(embaixadora de palavras, despertando compaixões, legitimando afinal as dádivas)



terça-feira, 14 de novembro de 2017

Comboio Noturno para Lisboa de Pascal Mercier #1

[...]Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo.. Quero erguer o meu olhar para o brilho dos seus vitrais e deixar-me cegar pelas cores prodigiosas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com a frescura seca das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a berraria na parada da caserna e o arrazoar frívolo dos oportunistas. Quero escutar o eco oceânico do orgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra o chinfrim ridículo da música de marcha. Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem, Preciso dela contra o veneno insidioso do supérfluo e negligente. Quero ler as palavras poderosas da Bíblia. Preciso da força irreal da sua poesia. Preciso dela contra o aviltamento da linguagem e a ditadura das senhas. Um mundo sem estas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

E, no entanto, existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver:um mundo em que o corpo e o pensar independentes são condenados e onde coisas que fazem parte do melhor que podemos experimentar são estigmatizados como pecados. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os torcionários e assassinos traiçoeiros, mesmo quando as suas brutais passadas marciais ecoam atordoantes pelas vielas, ou quando se esgueiram silenciosos e felinos, como sombras cobardes, pelas ruas e travessas, para enterrar pelas costas, direito ao coração das vítimas, o aço faiscante. Entre todas as afrontas que do alto do púlpito foram lançadas às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria, forçosamente, que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamente, esse desvairado e perverso mandamento do amor para com o inimigo serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a confiança em si próprios, e para as tornar malévolas nas mãos dos tiranos, para que elas não consigam encontrar a força para se revoltarem, se necessário pegando em armas. [...]

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(Tenho a mania de ficar com textos dentro dos olhos. Levam algum tempo para diluir em lágrimas. Outras vezes cimentam ideias, sobem ao sótão das convições e ficam. Este é um deles)

Sem

Há sempre uma pergunta que me assola a mente em dias como estes em que deixo o conforto de todos os dias e procuro, numa visita negra, outro conforto.

Quando o frio que me envolve o peito me encaminha os passos, para a realidade de outras vidas que ficaram ainda mais frias, penso: o que me guia?

E penso ainda se a minha tristeza surge pelas lembranças de outros momentos em que, também eu, perdi, ou se a minha tristeza é a antevisão do dia em que vou estar sentada, quieta, vazia, a ser vista por outras pessoas que, também elas, procuram numa visita negra, outro conforto.

(aceitam-se sugestões e dão-se alvíssaras)

Chama-se Mafalda (II)

Foi já há algum tempo que a encontrei na rua. 
Pequenina e fugidia, olhos tão grandes e tão cheios de medo que me fizeram lembrar os de um cachorro maltratado. 
Olha de baixo para cima, inclina a cabeça e cruza os braços sobre o peito, peito de mulher quase inexistente. 
Como se tivesse jurado não partilhar a dor com mais ninguém e, por isso, a quisesse prender. 
Com um afago percebo os contornos doentes do seu corpo, as marcas vermelhas de uma doença que lhe chegou da vida, pouca, que teve até aí. 
Espremida a vida, ficam as feridas do vício, da promiscuidade, do abandono a tantos outros corpos, em outras tantas noites de perdição.
Tem a idade de tudo esperar da vida, a idade de uma mulher que se prepara para viver, para procriar, para dar amor incondicional, para se dar ao outro e ficar. 
Foi mãe mas o filho, agora morto, foi consolo de pouca dura.
Tem os anos que se contam num papel mas, na pele, contam-se 10 vezes mais.
Não mendiga, não pede, não aceita mais do que pensa ter direito. E pensa não ter direito a nada.
Agora, porque a vida é madrasta, padrasto e carrasco, não conseguiu dar a volta. 
E é no hospital que agora a encontro, enfraquecida.
Os olhos continuam grandes porque a anatomia é indiferente ao interior, é cínica que baste para enganar e subverter o sentido de uma existência condenada.
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[11.03.16-Internada no Curry Cabral, pavilhão de infecto-contagiosos. Entro de máscara branca por cima da máscara habitual que levo no rosto]