Se aceitarmos que o mundo é uma ervilha e que, cada vez que a rodamos nos dedos, fatalmente revemos a mesma face, então não é estranho que volte a tropeçar na Mafalda, por via do mais simples dos acasos.
(talvez "lá em cima" alguém me esteja a pregar partidas e coloque este degrau no meu caminho ciclicamente)
Noite de concerto no Coliseu! Entusiasmo, vibrações na alma à espera de ouvir as notas tão familiares de Jorge Palma. Na fila. À minha frente meia-dúzia de pessoas de costas voltadas para mim.
(acredito que a posição tenha a ver com o facto de ser uma fila e não propositadamente)
Ruídos de conversas, trocas de palavras, algumas também de entusiasmo e no meio...repentinamente...uma voz baixa e fina.
Primeiro ouvi o som e só depois decifrei as palavras...ajudar...uma moeda...comer.
Voltei-me porque também eu estava de costas para os que faziam a fila
(confesso que comigo esta posição de estar de costas é mais propositado do que casual)
E uma figura tão pequena, quase invisível surgiu ao meu lado.
Primeiro estendeu a mão e só depois levantou os olhos. Quero acreditar que sorriram.
(sorriram, pronto, tenho a certeza)
Abraçou-me como sempre, cabia debaixo da curva do meu braço, mas eu encolhi os joelhos e deixei-a ficar assim na curva do meu pescoço. Cheirava bem mesmo que os altos e baixos do seu corpo sejam doença sem remédio. Riu sem dentes, mas com aqueles olhos grandes e cheios de pestanas que são dela e de mais ninguém.
Mostrou-me a barriga de uma gravidez pequenina
(pequenina porque a Mafalda é pequenina, dentro caberia talvez uma vida de 4 meses)
E disse-me com uma candura que sei ser mentirosa mas, para ela, tão genuína como as verdades maiores, que estava grávida, feliz e que tudo ia correr bem.
Despedi-me dela com outro abraço e isso parece ter incentivado os tais que estavam de costas para mim e os outros que eu tinha ignorado.
Houve mais moedas para a Mafalda
E eu que só estava ali para me deliciar com as letras do Jorge Palma fiquei assim a fazer de embaixadora da VOXLisboa, sem querer.
(embaixadora de palavras, despertando compaixões, legitimando afinal as dádivas)
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