terça-feira, 14 de novembro de 2017

Chama-se Mafalda (II)

Foi já há algum tempo que a encontrei na rua. 
Pequenina e fugidia, olhos tão grandes e tão cheios de medo que me fizeram lembrar os de um cachorro maltratado. 
Olha de baixo para cima, inclina a cabeça e cruza os braços sobre o peito, peito de mulher quase inexistente. 
Como se tivesse jurado não partilhar a dor com mais ninguém e, por isso, a quisesse prender. 
Com um afago percebo os contornos doentes do seu corpo, as marcas vermelhas de uma doença que lhe chegou da vida, pouca, que teve até aí. 
Espremida a vida, ficam as feridas do vício, da promiscuidade, do abandono a tantos outros corpos, em outras tantas noites de perdição.
Tem a idade de tudo esperar da vida, a idade de uma mulher que se prepara para viver, para procriar, para dar amor incondicional, para se dar ao outro e ficar. 
Foi mãe mas o filho, agora morto, foi consolo de pouca dura.
Tem os anos que se contam num papel mas, na pele, contam-se 10 vezes mais.
Não mendiga, não pede, não aceita mais do que pensa ter direito. E pensa não ter direito a nada.
Agora, porque a vida é madrasta, padrasto e carrasco, não conseguiu dar a volta. 
E é no hospital que agora a encontro, enfraquecida.
Os olhos continuam grandes porque a anatomia é indiferente ao interior, é cínica que baste para enganar e subverter o sentido de uma existência condenada.
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[11.03.16-Internada no Curry Cabral, pavilhão de infecto-contagiosos. Entro de máscara branca por cima da máscara habitual que levo no rosto]

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