E, no entanto, existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver:um mundo em que o corpo e o pensar independentes são condenados e onde coisas que fazem parte do melhor que podemos experimentar são estigmatizados como pecados. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os torcionários e assassinos traiçoeiros, mesmo quando as suas brutais passadas marciais ecoam atordoantes pelas vielas, ou quando se esgueiram silenciosos e felinos, como sombras cobardes, pelas ruas e travessas, para enterrar pelas costas, direito ao coração das vítimas, o aço faiscante. Entre todas as afrontas que do alto do púlpito foram lançadas às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria, forçosamente, que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamente, esse desvairado e perverso mandamento do amor para com o inimigo serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a confiança em si próprios, e para as tornar malévolas nas mãos dos tiranos, para que elas não consigam encontrar a força para se revoltarem, se necessário pegando em armas. [...]
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(Tenho a mania de ficar com textos dentro dos olhos. Levam algum tempo para diluir em lágrimas. Outras vezes cimentam ideias, sobem ao sótão das convições e ficam. Este é um deles)
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