terça-feira, 14 de novembro de 2017

Comboio Noturno para Lisboa de Pascal Mercier #1

[...]Não quero viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e da sua transcendência. Preciso delas contra a vulgaridade do mundo.. Quero erguer o meu olhar para o brilho dos seus vitrais e deixar-me cegar pelas cores prodigiosas. Preciso do seu esplendor. Preciso dele contra a suja uniformidade das fardas. Quero cobrir-me com a frescura seca das igrejas. Preciso do seu silêncio imperioso. Preciso dele contra a berraria na parada da caserna e o arrazoar frívolo dos oportunistas. Quero escutar o eco oceânico do orgão, essa inundação de sons sobrenaturais. Preciso dele contra o chinfrim ridículo da música de marcha. Amo as pessoas que rezam. Preciso da sua imagem, Preciso dela contra o veneno insidioso do supérfluo e negligente. Quero ler as palavras poderosas da Bíblia. Preciso da força irreal da sua poesia. Preciso dela contra o aviltamento da linguagem e a ditadura das senhas. Um mundo sem estas coisas seria um mundo no qual eu não gostaria de viver.

E, no entanto, existe ainda um outro mundo no qual eu não quero viver:um mundo em que o corpo e o pensar independentes são condenados e onde coisas que fazem parte do melhor que podemos experimentar são estigmatizados como pecados. O mundo em que nos é exigido amar os tiranos, os torcionários e assassinos traiçoeiros, mesmo quando as suas brutais passadas marciais ecoam atordoantes pelas vielas, ou quando se esgueiram silenciosos e felinos, como sombras cobardes, pelas ruas e travessas, para enterrar pelas costas, direito ao coração das vítimas, o aço faiscante. Entre todas as afrontas que do alto do púlpito foram lançadas às pessoas, uma das mais absurdas é, sem dúvida, a exigência de perdoar e até de amar essas criaturas. Mesmo se alguém o conseguisse, isso significaria uma falsidade sem igual e um esforço de abnegação desumano que teria, forçosamente, que ser pago com a mais completa atrofia. Esse mandamente, esse desvairado e perverso mandamento do amor para com o inimigo serve apenas para quebrar as pessoas, para lhes roubar toda a coragem e toda a confiança em si próprios, e para as tornar malévolas nas mãos dos tiranos, para que elas não consigam encontrar a força para se revoltarem, se necessário pegando em armas. [...]

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(Tenho a mania de ficar com textos dentro dos olhos. Levam algum tempo para diluir em lágrimas. Outras vezes cimentam ideias, sobem ao sótão das convições e ficam. Este é um deles)

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