Foi assim a meio de frases precipitadas ditas roucamente e um olhar esguio. que ouvi o seu nome.
Normal, o nome, até um pouco rebuscado talvez.
Mafalda
Breve o nosso encontro mas tão imenso que não consigo afastar a sua face.
Pequena, tão pequena como uma criança que ainda não cresceu.
Queria roupa
- Estão a dar roupa?
Eu respondi que não, com alguma pena de não poder dar-lhe o que andava à procura.
- Eu precisava de roupa
- Se tivesse vindo mais cedo estiveram aqui a dar comida e roupa
- Pois, mas é muita gente, muita confusão, eu não gosto de muita gente.
Percebo-a, mesmo com esta distância que, aparentemente, nos separa.
Não gosta de muita gente.
- Então podemos combinar uma coisa, daqui a 2 semanas eu vou estar aqui de novo e se vier ter comigo, eu ajudo-a a escolher a roupa sem ser no meio de muita gente, pode ser?
(Eu a desejar que já tivessem passado duas semanas assim de repente, e já fosse outra vez dia de conversa amiga)
- Sabes a minha filha morreu
- (…)
- Morreu de Síndrome de Morte Súbita
- Sim…tenho muita pena
(Quando alguém perde um braço ou uma perna…oh que pena, diz-se, mas olha estás vivo, podes continuar. Que se diz a alguém que perde o coração?)
- Morreu pois foi. E eu fiquei assim sozinha.
- Mas sabes se ainda tivesses a tua filha seria muito difícil criá-la na rua assim na condição em que estás, não?
(Mas que espécie de consolação é esta, mas que estúpido argumento é este, eu, mãe, mulher?)
- Nunca faltou nada à minha filha, fosse como fosse. Eu nem sequer gostava do gajo que me lixou. Não gostava dele, estava drogada e depois já tinha acontecido. Quando soube que estava grávida disse-lhe, agora que me deixaste assim, ensina-me a gostar de ti. E foi a droga, foi esta merda desta vida que me trouxe aqui. Sabes tenho SIDA.
(“Ensina-me a gostar de ti”, esta frase ficou assim a pairar na minha cabeça, talvez a frase mais forte que ouvi de alguém que, por desamor, se perdeu)
- Como vives, como sobrevives?
- Tenho um quarto numa pensão que custa €12,50 por noite. Durmo ali com o gajo que me deixou assim, desgraçada….Sabes… tu podias ser minha mãe…!
(Olhei em volta a tentar entender se o fim da frase vinha da mesma fonte de dor ou se seria um eco sonhado)
A sua cabeça encostou-se no meu ombro. O meu ombro cedeu àquela criança/mulher que se chama Mafalda e que dizia que eu podia ser mãe dela
- Que idade tens?
- 27
- Pois então podias mesmo ser minha filha porque a minha filha mais velha tem 27 anos.
- Mas podias ser mesmo a sério, podias, eu gostava que fosses minha mãe…
Dei-lhe um abraço, sem conseguir dizer mais. Porque podia ser minha filha, tem a idade certa, o tamanho certo, talvez até a doçura certa. Não estava na minha casa, não tinha tomado banho, não estava penteada e estava muito doente a caminhar para o fim.
Geografia, pensei, talvez seja apenas uma questão de geografia, do sítio onde se está em vez de noutro qualquer. Naquela noite não sei ainda exactamente o que senti, passaram muitos dias e ainda não consigo separar as palavras, dos meus olhos, da ponta dos meus dedos, do meu peito que ela ocupou durante um segundo.
Sem abrigo, duas palavras que me soam hoje de uma forma muito diferente. Não sei ainda o que significam. Mas escolhi esta definição: sem tecto, sem casa, sem gente, sem rumo, sem tudo.
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